Socos, agulhadas, golpes de
caratê, dores e dores e dores - mas não é que melhorou? Japonês mandou voltar
no dia seguinte. Na porta, domo arigatô, emendou:
- E vê se pára de abusar
desse fígado, que ele não é de ferro!
Fígado? Ué. Que comentário
mais disparatado, pensou. Mas dormiu bem e acordou mais solto, quase bom.
Japonês danadinho! Chegou lá, danadinho meteu a mão: torceu, estalou, futucou,
agulhou, queimou, mandou voltar em dois dias, arigatô, reforçou:
- E o fígado, já está
cuidando melhor dele?
Fígado. Que diabos queria o
japonês dizer com isso? Desconcertado, foi ao Aurélio ler que "fígado é
uma víscera glandular volumosa situada predominantemente no hipocôndrio
direito, com pequena parte no epigástrio e hipocôndrio esquerdo, que desempenha
funções tais como secreção da bílis, modificação de medicamentos, produção de
glicogênio, e outras". Grande coisa. Podia estar escrito lá que isto é bom
para o fígado, aquilo é ruim para o fígado, chá de boldo por exemplo ele se
lembrava da tia tomar sempre e não comer gorduras nem beber álcool de jeito
nenhum porque sofria do fígado. Pobre tia, morreu do coração. Mistérios.
Pensava nisso enquanto jantava ovos com bacon e tomou mais uma cerveja à saúde
dos antepassados.
Na consulta seguinte,
reparando melhor na decoração do consultório, viu uns mapas do corpo humano
cheio de linhas, pontinhos, letras e números. Identificou alguns lugares que o
japonês agulhava ou queimava: F3 no pé, F9 na perna. Na primeira chance
perguntou o que significavam aqueles códigos.
- Fígado!, respondeu o
japonês.
Nosso herói calou-se para
sempre. Porque o homem certamente punha as costas no lugar, mas em matéria de
fígado era no mínimo um neurótico.
Fosse menos lacônico, o
brilhante manipulador de músculos e articulações poderia ter iluminado a mente
do herói explicando que as linhas desenhadas nos mapas representam meridianos
de energia, ou seja, canais por onde passa uma cena vibração sintonizada com o
funcionamento de tudo o que existe no corpo - incluindo a cabeça. Contaria,
tomando um chá, que o exercício da medicina através desses meridianos é muito
antigo e começou com os chineses, quatro ou cinco mil anos arrás. sendo depois
adotado também pelos japoneses. Mostraria que acupuntura, shiatsu, do-in,
quiroprática e outras técnicas cujos bons efeitos parecem pura mágica aos
nossos redondos olhinhos ocidentais são modos diferentes de usar os mesmos
princípios para harmonizar a energia vital.
Então, pacientemente,
explicaria que o fígado está ligado aos músculos do mesmo jeito que a unha ao
dedo, e não só a eles como ainda aos olhos, à cor verde, ao sabor ácido, à
primavera, à excitação sexual, à raiva, à imaginação, à paciência, e que todas
essas coisas são vistas pela tradição chinesa como manifestações de um mesmo
tipo de energia, como círculos concêntricos na água em que caiu uma pedrinha.
Por fim, tirando a última carta da manga, o bom mestre diria ao herói que a
tradição medicinal do oriente manda tratar os distúrbios primeiro com
alimentação; se não adiantar, com ervas; e só em último caso com agulhas e
massagens.
Por que calou? Calou por
quê? Cenamente, ora, por estar careca de saber que a maior parte das pessoas
detesta a idéia de mexer em hábitos alimentares e também não acredita em tomar
chá, preferindo ir logo ao tratamento mais profundo - que resolve a crise, mas
não modifica componamentos e portanto não elimina as causas.
Muito bem. Massagista
massageia, livro verbeia. Este livro é dedicado a você, herói.
Como? Não, nenhuma dieta,
pode ficar sossegado. Ao contrário: comer de tudo. Que o ser humano, afinal, é
onívoro, como qualquer observador mais atento pode constatar. Mas comer de tudo
para ficar leve, de bom humor, numa sintonia fina com as ondas interessantes, e
principalmente com as costas no lugar, tá certo?
Também não tem receitas de
massagem, nem de acupuntura, nem de tratamentos do fígado, mas tem muita
informação.
Pra dizer a verdade, amigo,
é um livro de tudo e nada. Só que do ponto de vista chinês, embora escrito no
Rio de Janeiro; sobre um modo muito antigo de ver o mundo, apesar de feito em
computador. Você pode começar imaginando que "tudo" é yang, o claro,
e "nada" é yin, o escuro, e terá um livro sobre yin e yang. Pode
imaginar que é um almanaque, um inventário do sabor, um objeto de consulta, uma
curiosidade a mais na sua estante. Mas pode imaginar também que é um livro
sobre você, sobre mim, sobre meios de conhecermos melhor os nossos processos -
internos, externos, grandes, pequenos, objetivos, subjetivos, de
relacionamento, de vida e morte, medo e paixão, em suma: essas coisas que nos
envolvem no dia a dia e que temos dificuldade de arrumar como um todo.
Texto extraido do "Manual do heroi" de Sonia Hirsch
Texto extraido do "Manual do heroi" de Sonia Hirsch
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