sábado, 21 de abril de 2012

DE MASSAGISTAS E DICIONÁRIOS

Deitou bom, acordou emperrado - costas presas, pescoço duro, braço bobo. Capengou até o banheiro, achou aquela aspirina americana que era tiro-e-queda, tomou logo duas, e nada: nem tiro, nem queda. Depois do café engoliu mais duas. Nenhum efeito. De tarde foi ao médico: injeção, comprimido caro, botou a maior fé! E à noite achou que ia morrer. Morrer torto, sem entrar direito no caixão. Dia seguinte tirou todas as radiografias possíveis, e o que encontrou? Nada, apesar de tudo. No terceiro dia já estava desesperado, achando que viver daquele jeito era ainda pior do que morrer. Foi aí que a ex-sogra telefonou falando do massagista japonês que fazia milagres. Ele imaginou socos, agulhadas traiçoeiras, golpes mortais de caratê, tremeu de medo, mas quem sabe adiantava?
Socos, agulhadas, golpes de caratê, dores e dores e dores - mas não é que melhorou? Japonês mandou voltar no dia seguinte. Na porta, domo arigatô, emendou:

- E vê se pára de abusar desse fígado, que ele não é de ferro!

Fígado? Ué. Que comentário mais disparatado, pensou. Mas dormiu bem e acordou mais solto, quase bom. Japonês danadinho! Chegou lá, danadinho meteu a mão: torceu, estalou, futucou, agulhou, queimou, mandou voltar em dois dias, arigatô, reforçou:

- E o fígado, já está cuidando melhor dele?

Fígado. Que diabos queria o japonês dizer com isso? Desconcertado, foi ao Aurélio ler que "fígado é uma víscera glandular volumosa situada predominantemente no hipocôndrio direito, com pequena parte no epigástrio e hipocôndrio esquerdo, que desempenha funções tais como secreção da bílis, modificação de medicamentos, produção de glicogênio, e outras". Grande coisa. Podia estar escrito lá que isto é bom para o fígado, aquilo é ruim para o fígado, chá de boldo por exemplo ele se lembrava da tia tomar sempre e não comer gorduras nem beber álcool de jeito nenhum porque sofria do fígado. Pobre tia, morreu do coração. Mistérios. Pensava nisso enquanto jantava ovos com bacon e tomou mais uma cerveja à saúde dos antepassados.

Na consulta seguinte, reparando melhor na decoração do consultório, viu uns mapas do corpo humano cheio de linhas, pontinhos, letras e números. Identificou alguns lugares que o japonês agulhava ou queimava: F3 no pé, F9 na perna. Na primeira chance perguntou o que significavam aqueles códigos.

- Fígado!, respondeu o japonês.

Nosso herói calou-se para sempre. Porque o homem certamente punha as costas no lugar, mas em matéria de fígado era no mínimo um neurótico.
Ah, que falta faz o verbo!

Fosse menos lacônico, o brilhante manipulador de músculos e articulações poderia ter iluminado a mente do herói explicando que as linhas desenhadas nos mapas representam meridianos de energia, ou seja, canais por onde passa uma cena vibração sintonizada com o funcionamento de tudo o que existe no corpo - incluindo a cabeça. Contaria, tomando um chá, que o exercício da medicina através desses meridianos é muito antigo e começou com os chineses, quatro ou cinco mil anos arrás. sendo depois adotado também pelos japoneses. Mostraria que acupuntura, shiatsu, do-in, quiroprática e outras técnicas cujos bons efeitos parecem pura mágica aos nossos redondos olhinhos ocidentais são modos diferentes de usar os mesmos princípios para harmonizar a energia vital.

Então, pacientemente, explicaria que o fígado está ligado aos músculos do mesmo jeito que a unha ao dedo, e não só a eles como ainda aos olhos, à cor verde, ao sabor ácido, à primavera, à excitação sexual, à raiva, à imaginação, à paciência, e que todas essas coisas são vistas pela tradição chinesa como manifestações de um mesmo tipo de energia, como círculos concêntricos na água em que caiu uma pedrinha. Por fim, tirando a última carta da manga, o bom mestre diria ao herói que a tradição medicinal do oriente manda tratar os distúrbios primeiro com alimentação; se não adiantar, com ervas; e só em último caso com agulhas e massagens.

Por que calou? Calou por quê? Cenamente, ora, por estar careca de saber que a maior parte das pessoas detesta a idéia de mexer em hábitos alimentares e também não acredita em tomar chá, preferindo ir logo ao tratamento mais profundo - que resolve a crise, mas não modifica componamentos e portanto não elimina as causas.

Muito bem. Massagista massageia, livro verbeia. Este livro é dedicado a você, herói.

Como? Não, nenhuma dieta, pode ficar sossegado. Ao contrário: comer de tudo. Que o ser humano, afinal, é onívoro, como qualquer observador mais atento pode constatar. Mas comer de tudo para ficar leve, de bom humor, numa sintonia fina com as ondas interessantes, e principalmente com as costas no lugar, tá certo?

Também não tem receitas de massagem, nem de acupuntura, nem de tratamentos do fígado, mas tem muita informação.

Pra dizer a verdade, amigo, é um livro de tudo e nada. Só que do ponto de vista chinês, embora escrito no Rio de Janeiro; sobre um modo muito antigo de ver o mundo, apesar de feito em computador. Você pode começar imaginando que "tudo" é yang, o claro, e "nada" é yin, o escuro, e terá um livro sobre yin e yang. Pode imaginar que é um almanaque, um inventário do sabor, um objeto de consulta, uma curiosidade a mais na sua estante. Mas pode imaginar também que é um livro sobre você, sobre mim, sobre meios de conhecermos melhor os nossos processos - internos, externos, grandes, pequenos, objetivos, subjetivos, de relacionamento, de vida e morte, medo e paixão, em suma: essas coisas que nos envolvem no dia a dia e que temos dificuldade de arrumar como um todo.

Texto extraido do "Manual do heroi" de Sonia Hirsch

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